1-O Trote.
Não havia maior vibração para um estudante do que a de ser aprovado no severo vestibular da Escola de Engenharia de Pernambuco, à época a melhor do Nordeste, se igualando à da Bahia.
Organizado pelos veteranos os feras a tudo se submetiam. Lembro-me que, nessa época, estava em testes a TV Jornal do Comércio, presente para documentar a festa. Formados para o desfile, vi uma estranha arrumação logo atrás de mim – vestido de noiva e um colega de Juscelino Kubischek, alusões à desenfreada inflação – e observei um engradado revestido de pano verde, sobre um “rabo-quente” pequeno carro da Renault, contendo um tubo vazio de papel vegetal apontando para a frente. Um cartaz dizia: isso é um trator!-qualquer semelhança com arma de guerra (tanque urutu) é mera coincidência. Correu o zum-zum-zum que o EB não permitiria a saída do trote, mas os veteranos insistiam e os feras “caneados” nem aí estavam!- Lá para as tantas tiraram a armação de cima do carro e mandaram meia dúzia de feras carregá-la. Nego Tenório era um deles. E o trote assim formou-se na rua do Hospício. Como nunca fui derrubado pela cachaça, hoje abolida, e como alagoano da terra de tiroteios, fiquei cismado e em alerta. Lá para as tantas aquele burburinho e corre-corre vindo da Boa Vista!-Eram os urutus, tanques de guerra de pneus que o EB lançara sobre nós!-Gritei para os colegas saírem debaixo da “arapuca” que carregavam e só houve tempo para a largarem no chão quando foi esmagada pelos largos pneus da real arma de guerra. De minha parte pulei entre as pernas de alguém que estava na janela de um Sebo existente em frente da EEP caí em cima de um monte de livros velhos e fui parar nos fundos da loja. Até hoje me pergunto, em face do clima revolucionário reinante, quem buscava fazer vítimas e, com certeza, não era o EB. A matéria saiu na TV.
2-Cavalaria.
Provocar o EB era coisa corriqueira. Vez ou outra a Escola era invadida por militares e, que me lembre, apenas uma vez o Diretor, não sei se Newton Maia, ou Ivan, impediu a entrada dos soldados enquanto a moçada fugia pulando o muro que se limitava com a Casa do Estudante, ou uma pensão, não lembro.
No quartel general da estudantada, Bar do Chope, no centro do Recife, era comum o surgimento de patrulhas da cavalaria do EB com soldados armados de imensos cassetetes de madeira. Nunca acabava bem e um belo dia botaram os cavalos em cima de nós e levaram quedas fantásticas porque a moçada espalhara ximbras (bolas de gude) aos montes e os cavalos se espragatavam no chão com soldados e tudo. Aí o cassetete vadiava e ninguém ficava para ver o resultado. Lembro-me que Arlindo Pontual – a Moveterras, sua empresa, era por ali – tomou um sobrinho das mãos de um soldado que lhe batia, mas ainda levou umas bordoadas.
3-Aurélio de Moraes Duarte – morava no primeiro andar de uma espécie de pensão na rua Boa Vista e cursávamos a cadeira de geologia (quando troquei as amostras das caixas e o professor assistente deu a aula errada), reclamava que não podia dormir porque um casal de namorados passava as noites chumbregando na porta do térreo. Disse-lhe: joga um balde com água neles, pô!- Eu vou jogar é um riólito extrusivo daqueles da geologia!
Fazíamos lanches noturnos no bar do Vieira, rua do Hospício, noites tardias de estudos freqüentes. Aurélio sempre presente, um dia faltou. Vieira botou as mãos nos quartos e indagou: cadê o Branquinho? – Que branquinho, Vieira?-Aquele que anda com um monte de livros debaixo do braço. Daí surgiu o apelido “Branquinho” que usei até quando se foi!
4-Nego Tenório – morava na Casa do Estudante e saíamos juntos para aquelas homéricas, e esporádicas, farras. Certo dia estávamos tomando chope naquele bar imenso do calçadão da Guararapes (eu no conhaque, ou cachaça) quando chegou uma dúzia de marujos de uma corveta que atracara no porto do Recife!-Tenório foi ao sanitário e de lá voltou com o casquete de um dos marinheiros, que tomara à força, e os seus parceiros se levantaram para brigar conosco. Foi o maior xerém para eu acalmar a tropa e conseguir devolver o quepe sem tapas, navalhas e murros!
Levamos Tenório para a pensão, sob homérico porre, mas propus ficarmos em vigília para ver se ele iria mesmo dormir. Não se passaram cinco minutos surge a cabeça do Nego, olha para um lado e para o outro, e toma o rumo do centro para continuar a farra. Pegamos a fera a pulso e o devolvemos à casa do estudante.
5-Odeval de Araújo Lyra – Major – Saíram as notas da prova final de estabilidade com Meyer Mesel e fomos dizer ao Major que ele tinha sido reprovado (mentira)!-Com aquela calma inabalável apenas perguntou: alguém me empresta uma apostila?
Companheiro de grandes lutas e amigo fiel, costumava eu ir a sua casa aos domingos onde tirava a barriga da miséria do bandeijão da Escola e ficávamos ouvindo o seu pai, Vavá, tocar piano e cantar. Tornamo-nos compadres!-Eu e Glorinha somos padrinhos de sua filha Débora. Soube, há pouco tempo, da dissolução de seu casamento com a Maria Helena.
6-Aula de Nilton Maia no 2º piso da Escola, em conjunto com a turma do 3.º Ano, aquela disputa para ficarmos juntos visando à conferência de resultados, mas os colegas do 3.º ano haviam se antecipado e não sobrara espaço. Voltara eu de Maceió trazendo as famosas bombas de fumaça (bombas puf) que soltei na escadaria e dentro da sala que virou o caos. Todos tossindo. Nilton Maia chegou com sua bata branca, olhou, expressou-se com aquele Ahnnn!-Aqui não haverá aula!-Mudemos de sala! Era o que queríamos e sentamos juntos: eu, Tetal, Quixabinha, Tenório, Odeval, Branquinho e outros.
7-Aula de Borba – praticamente em cima do refeitório. Mesmo esquema!-Lugares ocupados, novas bombas, o caos. O Borba quando chegou a fumaça se dissipara, mas estávamos juntos. Faltava o Tenório que fizera outra farra!- Quixabinha perguntou se podia dar um grito pelo Tenório que devia estar no restaurante, Permissão concedida gritou com aquela voz cavernosa: TENÓRO!-Nada! – TENÓRO!-Nada. Como me dava bem com o Borba, aliás, com quase todos os professores por ser um razoável aluno, o que gerou a ciumeira de alguns que me consideravam puxa-saco, o que abomino, perguntei ao Borba se poderia “dar um grito”. Permissão concedida lancei aquele aíiiii afrescalhado que ficou na história do curso.